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segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Longe

Longe havia uma antiga cidade,
de perto seria a própria realidade.
O mesmo pesadelo em uma nova embalagem.
Se conta em segredo o que todo mundo já sabe.

Onde o silêncio é grito dos desesperados,
em auto-conflito é só preciso coragem.
Encarcerados pra sua própria proteção,
crescem num mundo que nunca viu igualdade.

Onde é que estava?
Quando mais precisava é que se esconde.

Enquanto perguntava onde é que estava.
E não se responde.

Tanto sensacionalismo em uma tela de TV,
catalogando informação sem filtrar o que se vê.
Não há o que fazer então falar é tão fácil:
Faça sempre o que eu digo, mas nunca o que eu faço.

Entre tantas vitrines, entre tanto glamour,
há quem vive pro trabalho e quem trabalha pra viver.
Escravizados por sua própria ambição,
vivem num mundo que já tem pago o seu preço.

Onde é que estava?
Quando necessitava é que esteve longe.

Enquanto procurava onde é que estava.
Esteve tão longe.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Silêncio

Faz tanto tempo que eu não escrevo nada que eu queria parar por um momento e dizer algo novo. Eu queria dizer alguma coisa mesmo sem ter nada para dizer. É irônico, pois o silêncio que existiu durante todo esse tempo não foi por não ter nada a dizer e sim por talvez já ter me cansado da maneira com que dizia.
Normalmente é assim que acontece. Já parei uma vez de escrever músicas para escrever histórias. Parei de escrever histórias para escrever crônicas. E também parei de escrever crônicas para escrever reflexões. Finalmente parei de escrever reflexões para não escrever mais nada. A verdade é que não faz diferença o formato contanto que se tenha algo a dizer para alguém que seja. Não que eu tenha parado por não querer dizer nada, mas sim por também haver significado no silêncio.
Existe, por exemplo, o silêncio significativo. Aquele que diz, mesmo sem dizer, e quem realmente te conhece sabe o que se passa sem precisar perguntar. Mas também existe o silêncio indiferente. Aquele que não diz por não ter a mínima vontade de dizer. Não podemos esquecer o silêncio avaliativo. Aquele que não diz, mesmo querendo muito dizer, e aguarda pelo melhor momento que muitas vezes nunca vem.
Além desses exemplos, ainda existem tantas outras formas de silêncio que eu não consigo descrever agora. O silêncio pode dizer mais do que muitas palavras, pois o que define o significado em um processo comunicativo não é apenas o que é dito ou como é dito, mas principalmente quem o recebe. Acho que é esse fator que me faz cansar dos formatos.
A verdade é que dizemos o que dizemos mais para a gente mesmo do que para os outros. É aí que mora o principal problema. Não faz diferença se alguém quer ouvir, ou se alguém precisar ouvir. Simplesmente dizemos. Ou não. E quase ninguém entende. A gente tem que sempre tentar se explicar de uma forma ou de outra. Mais do que ser contrariado, o que me irrita mesmo é não ser compreendido. Como já disse uma vez em uma música: “Quem dera alguém pudesse me entender, eu estaria satisfeito mesmo estando errado”.
É por isso que estou sempre mudando. Mudando o jeito de dizer, mudando o que eu tenho para dizer, mudando para quem eu digo. Tentando o tempo todo diminuir o desgaste entre locutor e receptor. Não é que me sinta equivocado ou incompreendido constantemente, mas na maioria das vezes por detestar soar repetitivo ou dizer algo para quem não quer ouvir. Quase sempre isso é notável.
Esse texto é um exemplo vivo de que o mais engraçado é que às vezes temos tanto a dizer e não dizemos nada, e outras tantas vezes não temos nada a dizer e dizemos mesmo assim.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Mudança

Existe um conceito intangível chamado de “mudança”. Sei que isso é discutível e peço que me acompanhem para que eu demonstre o quão mal definido ele é. Começando pela forma com que o dicionário o descreve como “alteração do estado normal de algo”. Considerando que o estado normal de algo é um conceito abstrato, fica difícil caracterizar a ideia de mudança.
Quando estamos diante de uma mudança muito grande na nossa vida, a tendência é ter medo. Receio. Na maioria das vezes é mais pela ansiedade de mudar e não pela mudança propriamente dita. E o engraçado é que uma semana depois de ter mudado e ter se habituado à mudança, parece que as coisas sempre foram daquele jeito. Quase não dá mais para se lembrar de como eram antes e qual era o motivo daquele medo bobo.
E quando tudo está para mudar, de uma vez, e você se pergunta por que aquilo tem que acontecer naquele momento exato? Como se houvesse um momento certo e propício para as coisas acontecerem. Já parou para pensar que a mudança pode não ser um obstáculo a ser superado e sim uma oportunidade a ser aproveitada? E oportunidades podem passar.
Outro fato interessante é que as pessoas não mudam como se espera e, ao mesmo tempo, mudam mais do que notamos. As pessoas que realmente nos saltam os olhos são aquelas que continuam nos surpreendendo ao longo do tempo e que, de repente, parecem estar se apresentando pela primeira vez. De novo. Claro, mesmo nas vezes em que nos surpreendem negativamente. Todas as outras pessoas previsíveis que acabam entrando na nossa vida, às vezes saem dela sem que a gente nem repare.
Como dito, o estado normal de algo é relativo. Quem sabe o que você considera normal foi implantado na sua cabeça por alguém, muitas vezes você mesmo, de uma maneira que lhe causa todo esse mal estar só de pensar em mudar. Uma mudança que muitas vezes se faz necessária, mas que a gente só percebe depois de ter mudado.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Talento

O censo comum nos diz que talento é uma incomum aptidão natural intrínseca de uma pessoa. Baseando-se nisso, a maioria de nós usa essa palavra para descrever coisas que julgamos inalcançáveis. É um conformismo, minimizando as expectativas que criamos ao ver alguém realizar o que não acreditamos sermos capazes de alcançar por nós mesmos.
Em outras palavras, resumimos o esforço que uma pessoa teve de alcançar algo incrível ao dizer que ela o fez por ter talento ou ter o dom para aquilo, e ainda achamos que a estamos elogiando. Na verdade, apenas a rebaixamos a um nível que seja compreensível para nós. Dessa forma, não parece que somos piores por não conseguir atingir aquele mesmo desempenho. Ou melhor, diminuímos a nossa própria capacidade dizendo a nós mesmos, inconscientemente, que nem precisamos tentar, pois não temos aquele talento. Que não temos o dom e nem aptidão para a coisa. Desistimos de arriscar e frequentemente isso parece mais fácil de aceitar.
Você acha que os atletas de alto rendimento nasceram prontos para ultrapassar os limites do corpo humano? Acha que os melhores pintores, escritores ou artistas de uma forma geral nasceram sabendo como fazer tudo? Diga-me se você realmente acha que todas essas pessoas que conquistaram coisas incríveis obteriam o mesmo resultado se não tivessem praticado exaustivamente todos os dias de sua vida e fazendo todos os sacrifícios que fazem para ser quem são? Claro que não. Medir o sucesso dos outros com a nossa mediocridade é desmotivador, para não dizer ultrajante.
Talento é um conceito abstrato que inventamos para dizer que alguém é melhor que a gente simplesmente por ser. É muito mais fácil acreditar nisso do que dizer que esse alguém é assim porque se esforçou e merece ser melhor. Bobagem. Você pode ser tão bom em qualquer coisa quanto qualquer um, basta colocar toda a sua determinação naquilo. Não há glória sem sacrifício e nem vitória sem muito suor.
Imagina só que chato seria descobrir que todas aquelas coisas que sabemos fazer muito bem, às vezes bem poucas coisas, é verdade, são fruto de um gene interior que já veio gravado na gente desde que nascemos. E ainda, saber que nunca poderemos realizar todas aquelas coisas que sempre sonhamos, tudo isso por causa dessa tal palavrinha Talento.
E quem diria que de uma mísera palavra, a gente podia tirar tantas conclusões.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Receita

Junte um sonho impreciso
com dois dedos de vontade,
uns três acordes de improviso
e o que mais você quiser.

O impossível é provável,
o difícil é tão fácil,
esqueça todos esses passos
e venha o que vier.

E vou até te conquistar
mais uma vez pra te mostrar
que é tão fácil esquecer
o que eu acabo de falar.

Mas não me olhe com censura,
todos tem que ver além.
A sensação hoje de cura,
não engana mais ninguém.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Chegar em Casa

É mais um dia na incrível e inebriante rotina de nosso genial amigo Rox. Uma frase com excesso de ironias e falta de explicações. Vamos a elas: Ainda no colégio, Rox costuma acordar cedo e isso nem sempre significa manter-se acordado. Mas, convenhamos, ele se esforça. Afinal, os adolescentes precisam de mais tempo de sono do que as “pessoas normais”, cujo dia ideal teria, no mínimo, umas trinta e seis horas. Seja para tentar fazer mais dinheiro trabalhando pelo menos trinta horas desse dia, ou fazendo nada por tempo ilimitado. Algumas pessoas ainda sonhariam com isso. Rox simplesmente não se importava. Engolia seu café da manhã e deixava seus devaneios inseguros sobre um mundo perfeito confortavelmente deitados em seu travesseiro, ou, muitas vezes, levava junto como material indispensável em uma interminável aula de história.
Na escola, as coisas não são muito diferentes do habitual. Rox, como bom exemplo de uma pessoa perfeitamente normal, chega junto com seus colegas e os cumprimenta com sonolentos Bons-dias, alguns pouco audíveis, e se senta no mesmo lugar de sempre, embora não seja obrigatório. É engraçado como as pessoas tendem a se acostumar facilmente com pequenas rotinas criadas por elas mesmas, transformando em banais, dias que poderiam ser únicos. E foi em um dia como esse que a mente do nosso herói começa a ter seus vislumbres de racionalidade um tanto quanto criteriosa, mas fazer o que? É aqui que tudo começa para nós.